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Futuro da Amazônia depende da “quarta revolução industrial”
29/08/2017

Daniela Chiaretti

19/09/2016

Valor Online

O futuro da Amazônia pode depender de uma terceira via de desenvolvimento baseada na inovação tecnológica de ponta, no conhecimento tradicional e nos ativos da biodiversidade.  Esta arquitetura inclui erguer em vários pontos da floresta centros de pesquisa como o Vale do Silício, na Califórnia e ter uma rede de cientistas internacionais estudando sua riqueza biológica.

A estratégia está relacionada à implantação, na floresta, da chamada “Quarta Revolução Industrial”.  O conceito, tema da reunião deste ano no Fórum Mundial de Davos, trata de um movimento global em curso há mais de uma década e que revoluciona as sociedades por meio de inteligência artificial, robótica, genômica e nanotecnologias, por exemplo.

“É olhar a Amazônia não pelos seus recursos naturais como água, terra e minerais, mas pelos biológicos”, diz o climatologista Carlos Nobre.  “É estudar a riqueza biológica da Amazônia.  Principalmente, a riqueza biológica escondida.”  A abordagem está em estudo publicado sexta-feira na revista PNAS (Proceeding of the National Academy of Sciences) por um grupo de cientistas liderado por Nobre.  Trata-se de um plano de inovação em grande escala para a floresta.  O modelo associa ciência ao conhecimento tradicional das comunidades locais e povos indígenas.

A ideia é explorar o que outro pesquisador do grupo, o peruano Juan Carlos Castilla-Rubio, denominou de a “terceira via amazônica”.  “Esta nova economia tem o potencial de ser muito maior do que a atual, baseada na exploração econômica com ‘intensificação sustentável'”, diz o engenheiro bioquímico Castilla-Rubio.  Outro flanco do estudo aponta os riscos a que a floresta está submetida.  “Fizemos um grande sumário do conhecimento mundial recente sobre Amazônia e apresentamos resultados novos sobre o efeito sinérgico do desmatamento com o aquecimento global mais os incêndios florestais, e considerando os efeitos benéficos do aumento da concentração de gás carbônico para a floresta”, diz Nobre.

Esses fatores juntos mostraram que há dois limites que não podem ser superados para garantir o equilíbrio da floresta: chegar a 4°C de aquecimento ou 40% de desmatamento.  Se uma dessas condições for superada, os cientistas acreditam que se chegará a um ponto de ruptura.  Em 2050, metade da floresta pode virar savana.  Os pesquisadores envolvidos com o estudo não acreditam na primeira via de desenvolvimento da Amazônia.  Foi o debate de décadas atrás, de tentar preservar tudo com unidades de conservação.  “A ideia de colocar uma cerca na Amazônia era impossível”, diz Nobre.

Nobre, que é pesquisador aposentado do INPE e novo membro da National American of Sciences (NAS), é crítico do segundo modelo de desenvolvimento, baseado na “exploração econômica e na intensificação sustentável”.  Diz ele: “Está embutido aí a ideia de que é preciso remover a floresta para gerar valor econômico.  E quanto mais bem-sucedida a atividade, mais dinheiro há para colocar neste modelo.  Nenhum desses caminhos asseguram a manutenção da floresta a longo prazo”, diz Nobre.

Os pesquisadores citam a exploração do açaí, do babaçu, do cupuaçu.  Mas, mais que isso, de estudar, por exemplo, a rã Tungara, que cria uma espuma de longa duração capaz de absorver CO2.  Outro exemplo é do jambu, planta com propriedades anestésicas que está sendo estudada para uso em pastas de dentes ou em produtos antiinflamatórios.  “É aprender com as soluções que o ecossistema da floresta desenvolveu há milhões de anos”, diz Nobre.

Castilla-Rubio lembra que a recente redução de 80% no desmatamento da Amazônia nos últimos 10 anos cria uma ponte para que se inverta o modelo de desenvolvimento atual na região.  “É produzir valor econômico com muito conhecimento e inovação, mas mantendo a floresta em pé”, diz ele.  “É desenvolver cadeias de produtos baseados na biodiversidade e que têm capacidade de alcançar mercados globais.”

Documento anexo:

Land-use and climate change risks in the Amazon and the need of a novel sustainable development paradigm (Carlos A. Nobre, Gilvan Sampaio, Laura S. Borma, Juan Carlos Castilla-Rubio, José S. Silva, e Manoel Cardoso), 2016.

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