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O futuro da Amazônia
04/08/2017

Antônio Nobre

Piseagrama

Pintura de Abel Rodríguez

O desmatamento zero na Amazônia, pseudo-meta de todo governo, não é mais suficiente para que a floresta continue a regular a temperatura do continente, a evitar catástrofes ambientais e a levar chuvas para regiões que já poderiam estar desertificadas.

Numa definição livre, a floresta tropical é um tapete multicolorido, estruturado e vivo, extremamente rico. Uma colônia extravagante de organismos que saíram do oceano há 400 milhões de anos e vieram para a Terra. Entre as folhas, ainda existem condições semelhantes àquelas da primordial vida marinha. A floresta funciona como um mar suspenso – que contém uma miríade de células vivas – muito elaborado e adaptado.

Evoluída nos últimos 50 milhões de anos, a Floresta Amazônica é o maior parque tecnológico que a Terra já conheceu, porque cada um de seus organismos, entre trilhões, é uma maravilha de miniaturização e automação. Em temperatura ambiente, usando mecanismos bioquímicos de complexidade quase inacessível, a vida processa átomos e moléculas, determinando e regulando fluxos de substâncias e de energia.

O conforto climático que apreciamos na Terra, desconhecido em outros corpos siderais, pode ser atribuído, em boa medida, à colônia de seres vivos que têm a capacidade de fazer fotossíntese. O gás carbônico funciona como alimento para a planta: torna-se matéria-prima transformada pelo instrumental bioquímico, com o uso de luz e água, em madeira, folhas, frutos, raízes. Quando as plantas consomem CO2, a concentração desse gás na atmosfera diminui.

Assim, as plantas funcionam como um termostato que responde às flutuações de temperatura através do ajuste da concentração do principal gás estufa na atmosfera depois do vapor d’água. Seu consumo de CO2, num primeiro momento, esfria o planeta, o que faz com que cresçam menos e, portanto, consumam menos. Num segundo momento, a acumulação de CO2 leva ao aquecimento do planeta, e assim sucessivamente, num ciclo oscilante de regulação.

Essa regulação da temperatura via consumo mediado de CO2 é apenas um entre muitos mecanismos da vida que resultam na regulação favorável do ambiente. As florestas tropicais são muito mais que aglomerações de árvores, repositório de biodiversidade ou simples estoque de carbono. Sua tecnologia viva e dinâmica de interação com o ambiente lhes confere poder sobre os elementos, uma capacidade resiliente de condicionamento climático, dando suporte também ao florescimento de sociedades humanas.

A América do Sul é um continente privilegiado pela extensiva presença de florestas cuja biodiversidade é riquíssima. Contudo, ao longo de 500 anos, a maior parte de sua vegetação nativa não pertencente à Bacia Amazônica foi aniquilada, como a Mata Atlântica, que perdeu mais de 90% de sua cobertura original. O efeito desse desmatamento histórico sobre o clima, embora perceptível, foi menos notado do que seria de se esperar, e a razão foi o resguardo oferecido pelas costas quentes (e úmidas) da Floresta Amazônica que mantiveram o continente razoavelmente protegido de extremos. Nos últimos 40 anos, contudo, a última grande floresta, cabeceira das águas atmosféricas da maior parte do continente, esteve sob o ataque implacável do desmatamento. Coincidentemente, aumentaram as perdas com desastres naturais ligados a anomalias climáticas, tanto por excessos (de chuva, calor e ventos), quanto por falta (secas).

No afã de modelar, com o auxílio de computadores, fluxos colossais de massa e energia para simular o clima, os meteorologistas, inicialmente, prestaram pouca atenção na cobertura de vegetação. Essa abordagem mudou radicalmente. Por meio de um número grande e crescente de evidências, hoje se sabe do papel vital exercido pela vegetação em muitos processos do clima. E praticamente todos os modelos do clima, assim como os mais complexos modelos do sistema terrestre, passaram a incluir representações elaboradas da vegetação.

Existem ainda muitos segredos bem guardados sobre o funcionamento das florestas. Alguns deles, revelados nas últimas décadas, são cruciais para o entendimento das funções das florestas no condicionamento do clima. O primeiro segredo é que a floresta mantém úmido o ar em movimento, o que leva chuvas para áreas continente adentro, distantes dos oceanos. Isso se dá pela capacidade inata das árvores de transferir grandes volumes de água do solo para a atmosfera através da transpiração.

Uma árvore grande pode bombear do solo e transpirar mais de mil litros de água num único dia. A Amazônia sustenta centenas de bilhões de árvores em suas florestas e 20 bilhões de toneladas de água por dia são transpiradas por todas as árvores na Bacia Amazônica. Em seu conjunto, as árvores, essas benevolentes e silenciosas estruturas da natureza, similares a gêiseres, jorram para o ar um rio vertical de vapor mais importante que o Amazonas.

Um metro quadrado de chão na Amazônia pode ter sobre si até dez metros quadrados de intrincada superfície foliar distribuída em diferentes níveis no dossel. Uma superfície terrestre florestada pode evaporar tanto quanto ou até mais água que a superfície líquida de um oceano ou lago, na qual um metro quadrado de superfície evaporadora coincide com apenas o mesmo metro quadrado da superfície geométrica.

Um estudo publicado recentemente no periódico científico Nature mostra que quase 90% de toda a água que chega à atmosfera oriunda dos continentes provém da transpiração das plantas e somente pouco mais de 10% da simples evaporação. Uma vez que essa transferência por transpiração se dá com grande absorção de calor na superfície, fica evidente que as antes insuspeitas plantas interferem – e muito – na chuva, nos ventos e no clima.

O segundo segredo está relacionado com a formação de chuvas abundantes em ar limpo. Em 1999, um estudo constatou que, na Amazônia, o ar na baixa atmosfera (troposfera) é tão limpo (livre de poeira) quanto o ar sobre o oceano, onde as fontes de poeira são muito reduzidas e, ainda, que as nuvens típicas na Amazônia se parecem muito com as nuvens marítimas. Essa inusitada semelhança inspirou pesquisadores a batizarem a Amazônia de “oceano verde”. A importância deste conceito novo e incomum reside na sugestão de uma superfície florestal cujas características de vastidão e de umidade e cujas trocas pelos ventos se assemelham àquelas dos oceanos reais.

Mas, na semelhança, havia um mistério, pois a maior parte do oceano azul tende à aridez, enquanto, no “oceano verde”, as chuvas eram torrenciais e constantes. Antes do avanço do desmatamento, dizia-se haver ali apenas duas estações, a úmida e a mais úmida.

O processo de condensação das nuvens necessita, além de baixa temperatura, de uma superfície sólida ou líquida que funcione como “semente” para que se inicie a deposição das moléculas de vapor. Essas sementes, ou núcleos de condensação, são, em geral, aerossóis atmosféricos: partículas de poeira, grãos de pólen ou de sal, fuligem e muitos outros. Se a limpeza do ar pode ser creditada, por um lado, ao efeito de tapete verde úmido da floresta, segurando a poeira embaixo, e, por outro, à lavagem do ar pelas chuvas constantes, como explicar a formação de chuvas tão abundantes sem as sementes usuais para nucleação?

Estudando trocas de gás carbônico, cientistas brasileiros e europeus descobriram os aromas da floresta, também chamados de compostos orgânicos voláteis biogênicos (BVOCs). Assim como um vidro de perfume aberto perde seu líquido por causa da evaporação, uma variedade de substâncias orgânicas evapora das folhas e ganha a atmosfera. Enquanto os BVOCs estão na forma de gás, dissolvidos no ar, a chuva não os lava. Somente quando se oxidam e precipitam-se como aerossóis, formando as chuvas, é que são lavados.

O terceiro segredo está ligado à sobrevivência da Floresta Amazônica a cataclismos climáticos e à sua formidável competência para sustentar um ciclo hidrológico benéfico, mesmo em condições externas desfavoráveis. Segundo a nova teoria da bomba biótica, desenvolvida pelos pesquisadores russos Victor Gorshkov e Anastassia Makarieva, a transpiração abundante das árvores, casada com uma condensação fortíssima na formação das nuvens e chuvas – condensação essa maior do que aquela que ocorre nos oceanos contíguos –, leva a um rebaixamento da pressão atmosférica sobre a floresta, que suga o ar úmido sobre os oceanos para dentro do continente, mantendo as chuvas em quaisquer circunstâncias.

Se a floresta for removida, o continente terá muito menos evaporação do que o oceano contíguo – com a consequente redução na condensação –, o que determinará uma reversão nos fluxos de umidade, que irão da terra para o mar, criando um deserto onde antes havia floresta.

O quarto segredo das florestas indica a razão de a porção meridional da América do Sul, a leste dos Andes, não ser desértica como áreas na mesma latitude, a oeste dos Andes e em outros continentes. A Floresta Amazônica não somente mantém o ar úmido para si mesma, como também exporta rios aéreos de vapor que transportam água para as chuvas que irrigam regiões distantes no verão hemisférico.

As escolas ensinam que a água evapora do mar, “vai” para os continentes, cai como chuva, é coletada nos rios de superfície e retorna ao mar. Ao fazer a ligação entre evaporação da água no mar com seu trânsito em terra, essa descrição simplória do ciclo hidrológico não está errada, mas não explica quase nada. Por exemplo, a razão de existirem desertos ou o porquê do vapor marítimo adentrar os continentes de forma heterogênea.

Nos anos 1970, o pesquisador brasileiro Eneas Salati e seus colaboradores, estudando os fluxos de vapor oceânico na Amazônia, perceberam que parte significativa da água que entrava como vapor no canal aéreo não retornava pelo canal terrestre. Daí, concluíram que a Amazônia estaria exportando esse vapor para outras regiões do continente e irrigando outras bacias hidrográficas, e não somente a bacia do Rio Amazonas. Análises preliminares feitas à época nas águas de chuva coletadas na cidade do Rio de Janeiro detectaram sinais de que parte daquele volume vinha do interior do continente, e não do oceano contíguo. E, mais especificamente, que havia passado pela Amazônia.

O conceito de rios atmosféricos foi introduzido em 1992 pelos cientistas Reginald e Nicholas Newell para descrever fluxos filamentares na baixa atmosfera capazes de transportar grandes quantidades de água como vapor, tipicamente em volumes superiores ao transportado pelo Rio Amazonas (que tem vazão de 200 milhões de litros por segundo – ou 17 bilhões de toneladas por dia). Daí a importância crucial das florestas a montante: constatou-se que a Amazônia é, de fato, a cabeceira dos mananciais aéreos da maior parte das chuvas na América do Sul.

O quinto segredo é o motivo pelo qual a região amazônica e os oceanos próximos não registram a ocorrência de fenômenos atmosféricos como furacões e outros eventos extremos. A atenuação da violência atmosférica tem explicação no efeito dosador, distribuidor e dissipador da energia dos ventos exercido pelo “rugoso” dossel florestal.

A condensação uniforme sobre o dossel florestal impede a concentração de energia dos ventos em vórtices destrutivos, enquanto o esgotamento de umidade atmosférica pela remoção lateral de cima do oceano priva as tempestades do seu alimento energético (vapor de água) nas regiões oceânicas adjacentes a grandes florestas. Ou seja, além de todos os outros serviços que a floresta presta ao clima, ela ainda oferece um seguro contra destrutivos eventos atmosféricos.

Todos esses efeitos em conjunto fazem da majestosa Floresta Amazônica a melhor e mais valiosa parceira das atividades humanas que requerem chuva na medida certa, um clima ameno e proteção de eventos extremos.

Em vista dos efeitos extensivos e elaborados das florestas sobre o clima, que resultados esperar de sua devastação? Quais as consequências futuras do desmatamento e quais as já observadas? A substituição da floresta por pasto tenderia a aumentar a temperatura média em cerca de 2,5°C e a diminuir as chuvas em 25%, além de aumentar a estação seca. Outros estudos chegaram a prever aquecimento de até 3,8°C.

Mais recentemente, o pesquisador Paulo Nobre e alguns colaboradores estudaram o impacto do desmatamento na chuva amazônica tendo como referência a inclusão ou a exclusão das respostas dos grandes oceanos aos cenários de desmatamento. Os autores encontraram uma redução consideravelmente maior na precipitação quando ao modelo geral de circulação da atmosfera foi acoplado outro modelo, que simula as condições internas dos oceanos (salinidade, correntes etc.). Para um cenário de desmatamento total da Amazônia, houve previsão de 42% de redução da chuva, contabilizando os mecanismos internos dos oceanos, contra 26% de redução da chuva sem considerá-los.

Já existem comprovações de muito do que foi projetado pelos modelos como consequência do desmatamento, especialmente a ampliação da estação seca. Porém, esses experimentos virtuais indicavam um prolongamento da estação seca após a destruição de 100% da floresta, o que já se observa com o corte raso de pouco menos de 19% da floresta. Ou seja, os modelos parecem tender a subestimar as consequências negativas nos cenários simulados. Os resultados de projeções mais recentes, incluindo os oceanos, agravam o quadro e aumentam o alerta.

Makarieva e Gorshkov preveem que o desmatamento completo da Amazônia reduziria a precipitação, como resultado da dissipação do efeito da baixa pressão associada à condensação. A teoria da bomba biótica sugere que a eliminação total do principal agente da transpiração levaria à cessação do bombeamento biótico. Desligado o interruptor da bomba que puxa o ar úmido para o continente, o fluxo de umidade deve mudar de direção e a condensação passará a ser relativamente maior sobre os oceanos (apesar de mais fraca do que a biótica, a bomba oceânica de condensação está sempre ligada), o que levaria à aridez em terra.

Os modelos climáticos usados para simular o desmatamento ainda não embutiram essa nova teoria física, portanto não projetam esse efeito, que poderia significar até 100% de redução nas chuvas.

Os danos do desmatamento, assim como os danos do fogo, da fumaça e da fuligem, ao clima, são candentemente evidentes nas observações científicas de campo. O desmatamento real é imenso e seus efeitos sobre o clima são bem documentados. Estudos em torres micrometeorológicas mostram que a substituição de floresta por pastagem leva a um aumento da temperatura de superfície e uma redução da evapotranspiração.

A discussão atual sobre desmatamento tende a passar longe de seus evidentes efeitos diretos e indiretos na redução das chuvas e recai sobre a extensão da área desmatada. No período 2011/2012, foram “apenas” 4.571 quilômetros quadrados desmatados na Amazônia brasileira. Se comparado com taxas de desmatamento em anos de pico, como em 2004 (27.772 quilômetros quadrados), esse valor parece modesto. O Brasil merece reconhecimento por ter logrado essa redução. No entanto, a despeito das notícias encorajadoras, essa taxa seria suficiente para desmatar área equivalente a toda a Costa Rica em meros dez anos. Além disso, reduções nas taxas anuais atenuam a percepção momentânea de perda e mascaram o desmatamento acumulado na Amazônia, o que é muito grave.

A área total de desmatamento até 2013 chega a 762.979 quilômetros quadrados, um passivo gigantesco de destruição. Não há muito motivo para comemorar. Mesmo porque, depois da aprovação do novo Código Florestal em 2011, com sua ampla anistia a desmatadores, já se observa uma nítida tendência de aumento das taxas anuais. E se a vastidão raspada já é gravíssima para o clima, a situação torna-se ainda pior ao se considerar o oceano verde ferido.

A exploração madeireira e o desmatamento gradual produzem extensas áreas degradadas que raramente entram na contabilidade oficial da destruição, mas que podem ter impacto significativo sobre o clima. Estima-se que, até 2013, a área total degradada pode ter alcançado 1.255.100 quilômetros quadrados. Somando com a área mensurada de corte raso, o impacto no bioma pela ocupação humana pode ter atingido 2.018.079 quilômetros quadrados.

Essa contabilidade sugere que até 47,34% da floresta pode ter sido impactada diretamente por atividade humana desestabilizadora do clima. Mas a área de impacto no sentido ecológico pode ser ainda maior, porque florestas contíguas a áreas de degradação sofrem direta e indiretamente os efeitos das mudanças ambientais vizinhas.

As mudanças climáticas na Amazônia e fora dela já batem à porta. Acelerando o desmatamento e ultrapassando o ponto de não retorno, que parece estar próximo, estimam-se poucas décadas até o clima saltar para outro estado de equilíbrio. Zerando o desmatamento e ocorrendo a regeneração da floresta, afasta-se a ameaça imediata para um futuro mais ou menos distante, tudo a depender da extensão de floresta oceano verde remanescente e do tamanho das forças climáticas externas.

A perturbação antropogênica, embora já extensiva e provavelmente demasiada, é o fator mais imprevisível numa projeção sobre o destino final da Amazônia. Se escolhermos continuar no ritmo “deixa-como-está-para-ver-como-é-que-fica”, e principalmente, se optarmos por não recuperar os estragos infligidos à grande floresta, a teoria sugere que o sistema amazônico pode entrar em colapso em menos de 40 anos.

Os efeitos locais e regionais no clima já estão sendo observados muito antes do esperado, ao longo das zonas mais devastadas, mas também em áreas mais afastadas que dependem da floresta para obtenção de sua chuva. Pelas evidências de alterações, o futuro climático da Amazônia já chegou. A decisão urgente e já tardia pela intensificação da ação de redução dos danos não pode esperar, se é que ainda existe chance de se reverter o quadro ameaçador. O investimento feito na atividade científica na Amazônia rendeu frutos importantes como  informação rica, fundamentada e disponível sobre aquele cenário. A responsabilidade é nossa sobre o que faremos com esse conhecimento.

A recente redução de taxas anuais de desmatamento, embora essencial, assemelha-se a fechar com as mãos um buraco no fundo de um bote inflável (clima), depois que a água vazada nos últimos 40 anos (desmatamento) já ameaça colocar o bote a pique.

Para enfrentar a gravidade da situação, precisamos de uma mobilização semelhante a um esforço de guerra, mas não direcionado ao conflito. Em primeira instância, é urgente uma “guerra” contra a ignorância, um empenho sem precedentes para o esclarecimento da sociedade, inclusive  daqueles que ainda se aferram ao grande erro de acreditar ser inócua a devastação das florestas. Entre eles, os que manejam motosserras, tratores com correntão e tochas incendiárias, mas também os que formularam políticas públicas, financiaram e controlaram os comandos da devastação, dando-lhes cobertura legislativa, legal e propagandística.

Talvez a eliminação da ignorância com relação à função essencial das florestas na geração do “clima amigo” possa, por si só, participar como vetor na conversão dessa minoria de desmatadores em protetores e, quiçá, até em restauradores das florestas. Muitos exemplos já existem em que essa conversão ocorreu, com grandes vantagens para todos os envolvidos. Nesse sentido, é vital fazer com que os fatos científicos acerca do papel determinante da floresta sobre o clima cheguem à sociedade e tornem-se conhecimento corrente. Todos os esforços devem ser feitos para simplificar a mensagem sem deturpar sua essência. Antes de tudo, deve-se falar para a sensibilidade das pessoas.

Em 2008, quando estourou a bolha financeira de Wall Street, governos mundo afora precisaram de apenas quinze dias para decidir usar trilhões de dólares de recursos públicos na salvação de bancos privados e evitar o que ameaçava tornar-se um colapso do sistema financeiro. A crise climática tem potencial para ser incomensuravelmente mais grave do que a crise financeira, não obstante as elites governantes venham procrastinando por mais de quinze anos a tomada de decisões efetivas que desviem a humanidade do desastre climático. Essa procrastinação parece piorar com o tempo, a despeito da disponibilidade de vastas evidências científicas e saídas viáveis, atraentes e criativas.

Na Amazônia, o retardamento decisório está nos prazos dilatados para metas e ações que deveriam ser urgentes, mas emperram em meio à burocracia impenetrável e impeditiva. Encontra-se também na demora no financiamento de projetos alternativos e benéficos e, principalmente, na lenta apropriação dos fatos científicos sobre a importância das florestas para o clima. Ignorar soluções inovadoras, disponíveis e viáveis de valorização econômica das florestas é jogar o problema para frente. O desmatamento zero, que já era urgente há uma década, ainda é colocado como uma meta a ser realizada em futuro distante. Muito diferente, portanto, dos quinze dias usados para salvar os bancos.

Se o conhecimento científico qualificado, o princípio da precaução e o simples bom senso não lograram gerar reação adequada daqueles que detêm os meios financeiros e os recursos estratégicos, o choque das torneiras secas aqui, cidades inundadas acolá e outros desastres naturais hão, quiçá, de produzir alguma reação.

Um nível adequado de rigor na erradicação do desmatamento poderia ser análogo ao do tratamento dado ao cigarro. Constatados os males ao ser humano e os prejuízos econômicos à sociedade, uma série de medidas foram adotadas para desestimular o tabagismo.

No que diz respeito ao desmatamento no Brasil, algumas providências do governo federal iniciaram esse processo de controle e desestímulo. Resultados significativos foram alcançados. Mas é preciso ir mais fundo e chegar à raiz do problema. Ampliar as políticas do Executivo, mobilizar a sociedade para neutralizar ações desagregadoras do Legislativo, como a anistia dada a desmatadores no novo Código Florestal Brasileiro, levar adiante a discussão sobre as consequências climáticas do uso do solo.

Uma situação extraordinária requer medidas extraordinárias. Sempre é tempo de rever leis para adequá-las às demandas da realidade e da sociedade. Somente multar desmatadores, que mais adiante serão anistiados pela burocracia ou pelo Congresso, é uma receita de fracasso.

Os programas de controle ao desmatamento hoje convivem com o estímulo a ciclos econômicos insustentáveis, com os vetores representados por estradas, hidrelétricas e outros programas de desenvolvimento, cujas debilidades de planejamento fomentam a invasão e a ocupação de áreas florestadas. Para que o desmatamento seja zerado, o que é indispensável para conter dano maior ao clima, todos esses buracos precisam ser tapados com mobilização e articulação da sociedade e governo, estratégia, inteligência, visão de longo prazo e sentido de urgência.

As queimadas originárias de atividades humanas sobre a floresta também precisam ser rigorosamente extintas. O fogo em áreas florestais, pastos e áreas agrícolas, próximas ou distantes da Amazônia, é um problema grave. Quanto menos fontes de fumaça e fuligem existirem, menor o dano à formação de nuvens e chuvas e, portanto, menor o dano à floresta, oceano verde. Devido à cultura do fogo ainda prevalente no campo, essa também não será uma tarefa fácil, mas é fundamental.

Ofoco usual, quando se discute o futuro do clima na Amazônia, é o desmatamento futuro, ou quanto cortar da mata que sobrou. Injustificadamente ausente, o assombroso desmatamento acumulado do passado precisa voltar ao foco, pois é sobre ele que recai o principal aspecto da reciprocidade climática. Sem tratar da devastação passada, o assombro se converterá em assombração.

Mas, como reconstruir uma paisagem devastada? Se fosse uma paisagem urbana, seria o caso de se retrabalhar as estruturas e edifícios que demandariam penosa reconstrução, tijolo a tijolo – um esforço de anos. Já estruturas inertes da natureza, como solos, rochas e montanhas levam milhares, milhões ou até bilhões de anos para se compor ou recompor, fruto da ação de lentas forças geofísicas.

E a paisagem viva? Se a vida anterior não tiver sido extinta, isto é, se houver propágulos, esporos, sementes, ovos, pais e seus filhotes, uma força misteriosa e automática de reconstrução entra em ação. Os “tijolos” biológicos são os átomos, que se unem nas moléculas, compõem as substâncias que constroem as células, articulam-se nos tecidos, aglomeram-se nos órgãos, constituem os organismos, povoam os ecossistemas, interagem nos biomas e cuja soma total é a biosfera.

A própria floresta nos oferece soluções mirabolantes para a reconstrução das paisagens florestais nativas, pois dispõe de engenhosos mecanismos para recompor-se a partir de sementes, ou cicatrizar-se, com o processo natural de regeneração das árvores em clareiras. Há uma coleção rica de espécies de plantas pioneiras que têm a capacidade de crescer em condições ambientais extremas. Essas plantas formam uma floresta secundária densa, criando, assim, condições para que a complexa e duradoura floresta tropical possa restabelecer-se por sucessão ecológica de médio e longo prazo.

Entretanto, quando a área desmatada é muito grande, o processo natural entra em falência por não conseguir fazer chegar ao solo descoberto as sementes das pioneiras. Aí torna-se necessário o plantio das espécies nativas. Se ainda houver chuvas, a floresta se regenerará nas áreas replantadas. Uma coleção de árvores plantadas é melhor que o solo exposto, mesmo que esteja longe de reconstituir em toda sua complexidade a parte funcional do ecossistema destruído. Precisamos e devemos regenerar o mais extensivamente possível o que foi alterado. Somente a integridade do oceano verde original garantiu, ao longo de eras geológicas, a saúde benigna e mantenedora do ciclo hidrológico na América do Sul.

Essa recomposição florestal implicaria a reversão do uso do solo em vastas áreas hoje ocupadas, algo improvável na ordem atual. Não obstante, existem caminhos alternativos com chances de criar condições imediatas de aceitação. Trata-se de fazer um uso inteligente da paisagem, com aplicação de tecnologias de zoneamento das terras em função de suas potencialidades, vulnerabilidades e de seus riscos.

A agricultura e outras atividades econômicas nas zonas rurais podem ser otimizadas, aumentando sua capacidade produtiva e liberando espaço para o reflorestamento com espécies nativas. Variados estudos da Embrapa mostram como intensificar a produção pecuária, reduzindo grandemente a demanda por área de pastos. Projetos como o Y Ikatu Xingu e Cultivando Água Boa demonstram como é possível a associação de interessados dos vários setores na recuperação de matas ciliares e outras valiosas ações de sustentabilidade.

O caos climático previsto tem o potencial de ser incomensuravelmente mais danoso do que a Segunda Guerra Mundial. O que é impensável hoje pode se tornar uma realidade incontornável em prazo menor do que esperamos. Restaurar as florestas nativas é a melhor aposta que podemos fazer contra o caos climático, uma verdadeira apólice de seguro.

NOBRE, Antonio. O futuro da Amazônia. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 08, página 102 – 113, 2015

Disponível em: piseagrama.org/o-futuro-da-amazonia

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