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OrbiSat vai mapear áreas remotas da Amazônia

Os mistérios da biodiversidade da Amazônia brasileira começam a ser desvendados, pela primeira vez, com o uso de tecnologia de radar aerotransportado, desenvolvido no Brasil. A empresa OrbiSat, de São José dos Campos, está fazendo o mapeamento de uma área de 1,142 milhão de quilômetros quadrados na Amazônia e apresentando informações inéditas da região em relação ao seu relevo, profundidade de rios e características da cobertura vegetal.

A área total a ser levantada corresponde ao vazio cartográfico da Amazônia, uma região de difícil acesso e que ainda não havia sido estudada de maneira precisa porque os métodos tradicionais de mapeamento, como fotos de satélites e aerofotogrametria, não conseguiam fazer imagens no período da noite e em dias chuvosos e nublados, uma situação muito frequente na Amazônia.

"Os atuais sistemas ópticos não possuem a precisão cartográfica necessária para a produção de mapas, além de não enxergarem o que existe sob a vegetação e o que está abaixo da copa das árvores", explica o presidente da OrbiSat, Rogério Ferraz de Camargo. Segundo o executivo, os métodos convencionais também demandam um grande número de pontos de medição em campo, algo que torna a operação bastante complexa, tendo em vista a grande dimensão da floresta Amazônica, uma região repleta de áreas alagadas e de vegetação densa.

"Com a aerofotogrametria, por exemplo, você precisa instalar pontos de coleta a cada 15 quilômetros e com a tecnologia do radar aerotransportado, essa distância se estende para entre 100 a 150 quilômetros, o que reduz consideravelmente o custo e o trabalho de campo", diz o diretor do Serviço Geográfico do Exército Brasileiro e coordenador da parte terrestre do projeto Cartografia da Amazônia, general Pedro Ronalt Vieira.

A precisão dos mapas gerados, segundo o presidente da OrbiSat, pode chegar a um metro de altura dentro da vegetação e até 25 centímetros fora da vegetação. "O contrato com o Exército prevê a produção de mapas em escala de 1/50 mil e resolução de 2,5 metros, mas nosso radar pode fazer mapas em escala de até 1/5 mil, o que significa uma resolução planimétrica de 0,5 metros", diz Camargo.

O nível de detalhamento e precisão das informações, segundo o General Vieira, será importante para o planejamento da defesa, desenvolvimento e pesquisa na região Amazônica. "Os dados cartográficos da Amazônia serão disponibilizados, gratuitamente, para todos os órgãos federais do governo, assim como para os Estados e municípios que necessitem dessas informações."

O trabalho da OrbiSat, considerado o maior projeto de sensoriamento remoto já implementado na América Latina, foi contratado pela Casa Civil da Presidência da República, através do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). Previsto para durar cinco anos, a parte terrestre do projeto "Cartografia da Amazônia" tem um custo estimado de R$ 50 milhões.

O radar usado para coletar as imagens da Amazônia (OrbSAR) possui resolução de até 0,5 metro, em banda P, sinal emitido pelo equipamento que penetra na vegetação e mostra a topografia e a imagem do solo, e banda X, sinal que faz imagens da superfície da floresta e mostra a altura da copa das árvores. Segundo o presidente da OrbiSat, não houve licitação para contratar a empresa, já que no Brasil ela é a única capacitada para desenvolver esse tipo de sensor.

O projeto também conta com a participação das Forças Armadas. A maior parte da região que está sendo mapeada (1,142 milhão de quilômetros quadrados), está sob a responsabilidade do Exército e o restante (658 mil quilômetros quadrados) está a cargo da Aeronáutica, totalizando uma área de 1,8 milhão de quilômetros quadrados que será mapeada.

O Ministério das Minas e Energia está fazendo um mapeamento geológico dessa área, mas contratou a empresa americana Fugro EarthData. A Marinha, de acordo com o general, está fazendo um levantamento dos canais de navegação da região, uma vez que 95% de tudo o que entra e sai da Amazônia é por via fluvial.

O mapeamento da área de 1,142 milhão de quilômetros quadrados de começou a ser produzido em 2008, com sensores instalados em três aeronaves, sendo duas de propriedade da OrbiSat.

Até o momento, já foram mapeados cerca de 750 mil quilômetros quadrados, o equivalente a três vezes a área do Estado de São Paulo. "Cerca de 80% do trabalho está focado na obtenção de dados pelo radar", explica o coordenador do projeto pelo Exército.

Com base no mapeamento do vazio cartográfico da Amazônia, o Serviço Geográfico do Exército Brasileiro produzirá um censo estatístico florestal, que irá separar essa região em tipo de floresta. "A partir daí saberemos, por exemplo, quantos pés de castanheira ou mogno temos na Amazônia."

Além do inventário estatístico, o Exército também se encarregará de fazer um mapeamento digital do terreno e da hidrografia da região estudada. "Esse tipo de informação nos permitirá saber a extensão de determinado rio e, numa situação de inundação ou cheia, saber quantos metros ele sobe."

A capacitação tecnológica da OrbiSat ficou conhecida, pela primeira vez, a partir de um trabalho feito para o governo da Venezuela. "Mapeamos um terço do território venezuelano e o contrato foi obtido a partir de uma concorrência promovida pelo Banco Mundial, em 2003". Os trabalhos da empresa na área de sensoriamento remoto também já foram contratados pela Itália, Suíça, Alemanha, Israel, Estados Unidos e França.

A OrbiSat possui um total de 300 colaboradores, sendo 95% deles com formação na área de pesquisa e desenvolvimento. Com faturamento de R$ 64 milhões em 2009, a companhia conta com três unidades: Manaus (produção), São José dos Campos (engenharia e administração) e Campinas (engenharia). Há mais de dez anos no mercado, a OrbiSat é uma empresa especializada em sensoriamento remoto, radares para vigilância aérea e terrestre e no desenvolvimento de produtos eletrônicos de consumo.

Virgínia Silveira
Valor Econômico (jornal) - 11/02/2010

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